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sexta-feira, julho 29, 2016

A Máscara em que Você Vive

The Mask You Live In (A Máscara em que Você Vive) é um dos melhores documentários disponíveis no Netflix atualmente. Trata de um dos temas mais tabus que existe na sociedade, que é a construção cultural sobre o que é ser homem.

O título do documentário é um trocadilho para masculino em inglês (masculine) e se não é uma abordagem mais ampla (existem diferenças entre homens e mulheres que vão além da construção cultural e social, mas também hormonais, por exemplo) serve para ser pensada e que deveria ser mais discutida.

A máscara que se refere o documentário é sobre o estereótipo de ser homem: não deve chorar, não deve ter dúvidas; tem que ser hétero e precisa reforçar isso a todo instante, tem que ser pegador, estar pronto pra brigas etc. Homens ou mulheres, sabemos todos como são os rótulos da masculinidade. A produção questiona os efeitos nocivos que isso pode acarretar nas crianças e adolescentes que aprendem ou fingem reprimir seus verdadeiros sentimentos em nome do que é socialmente aceito.

Alguns dados sobre os Estados Unidos e que, imagino, tenha uma correlação com outros países como o Brasil: em comparação com as meninas, os meninos têm muito mais chances de serem reprovados, abandonar ou serem expulsos da escola. O suicídio é a terceira causa de morte dos garotos (são pelo menos três por dia). Noventa e três por cento dos menores de 18 anos estão expostos a pornografia na internet e 21% usam pornografia todos os dias. Junte esses dados com a cultura do estupro (de acordo com o documentário 1/3 desses jovens pensariam em cometer estupros se não houvessem chances de serem pegos) a outros fatores que também são reflexos de uma construção “cultural” masculina. Noventa por cento dos assassinatos são cometidos por homem, que também são os que mais morrem, bem como o alcoolismo e a dependência por outras drogas.

Enfim, este documentário é um bom ponto de partida para se refletir os efeitos de uma construção estereotipada sobre ser homem podem causar em milhões de crianças (sejam meninos ou meninas). E se o feminismo tem sido de suma importância (eu simpatizo com algumas correntes, com outras, não) na reconstrução do que é ser mulher, é preciso também se rediscutir o que é ser homem.

PS. Mansome é outro documentário, bem mais leve e não tão bom, que discute o que ser um adulto macho nos dias de hoje na cultura americana, desde o uso da barba aos cuidados cosméticos com a aparência.


domingo, junho 19, 2016

Documentários

Uma seleção de bons documentários com temas diversos que vi nos últimos tempos. A maioria deles está disponível ou no Netflix ou no youtube.

(Dis)Honesty – The Truth About Lies (ou (Des)honestidade – A verdade sobre mentiras)
O impacto das mentiras em nossas vidas e na sociedade.

A Corporação
O documentário é um curso sobre como as grandes corporações (IBM, Dysney, McDonalds, Monsanto, Pfizer, Pirelli e outras tantas) surgiram e cresceram no mundo.

As hiper mulheres
Os preparativos para a realização do Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu (MT).

A vida depois do Pornô
Como é a vida das celebridades do entretenimento adulto depois que se afastam das atividades pornôs.

Cinderelas, Lobos & Um Príncipe Encantado
A ilusão de meninas que sonham em encontrar seu príncipe encantado mas que, em sua grande maioria, encontram o descaso, o preconceito, a inexistência do Estado e a violência.

Darwin matou Deus?
É possível conciliar a teoria de Darwin com religião?

Dia de Festa
Um olhar sobre a ocupação de sete imóveis abandonados por seus proprietários em São Paulo pelo Movimento dos Sem Teto do Centro – MSTC.

Doméstica
Os olhares de jovens patrões em relação às suas empregadas domésticas.

God loves Uganda (Deus ama Uganda)
A expansão das igrejas evangélicas em Uganda.

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief (Esclarecendo: Cientologia e a Prisão de Crença)
Um mergulho numa “religião” que atrai celebridades como Tom Cruise, John Travolta e Will Smith.

Hot Girls Wanted
Jovens em busca da fama na indústria pornográfica.

Jesus Camp
O recrutamento de crianças para às igrejas evangélicas.

Puta porque sim! – quando a prostituição é feminismo
Prostitutas, pesquisadores e gestores públicos falam sobre a profissão.

O Riso dos Outros - O humor tem limites?
Independente da sua resposta a essa pergunta, vale a pena refletir sobre o tema.

O vírus da fé (A raiz de todo mal)
Para o biólogo Richard Dawkings a religião é uma doença que se espalha como um vírus.

Orgasm.inc
Sobre os mitos do prazer e as indústrias farmacêuticas que os alimentam.

The Propaganda Game
O que você realmente acha sobre a Coréia do Norte e o quanto os Estados Unidos podem estar manipulando sua opinião.

The True Cost
As empresas de moda de “consumo rápido” e suas consequências socioambientais.

The Unbelievers (ou Incrédulos)
Richard Dawkins e Lawrence Krauss entrevistam “celebridades” e pesquisadores sobre a importância da ciência e da razão no mundo contemporâneo.

Unhung Hero (Herói Mal-Dotado)
Documentário fala sobre... pênis. Principalmente sobre aqueles abaixo da média, sobre os problemas culturais e emocionais e como existe uma indústria que promete aumento peniano cujos resultados estão longe de serem satisfatórios.

Zeitgeist
Apesar da terceira parte ser muito “teoria da conspiração”, principalmente quando fala-se do 11 de setembro, mas não deixa de ser importante para uma discussão sobre estamos ou não em uma verdadeira Matrix.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Documentário Puta porque sim!

Conhecida erroneamente como a profissão mais antiga do mundo e uma suposta atividade da Madalena bíblica, a prostituição e suas profissionais ainda são, vergonhosamente, um tabu. Citada muitas vezes no cinema e na literatura: Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa; Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez, parte da obra de Jorge Amado e por aí vai, há pouquíssimo espaço para discussão séria como o projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys, cujo tema havia sido proposto anteriormente por Fernando Gabeira.
Da vida real no Brasil temos a Hilda Furacão, a Bruna Surfistinha, a atual Lola Benvenutti e a mais icônica, Gabriela Leite, que, ativista, gerou mesmo depois de sua morte, muita discussão e conquistas às profissionais do sexo. Monique Prada e Indianara Siqueira são duas profissionais que também são ativistas. Mas é comum receberem ataques nas redes sociais e espaços de discussão por pessoas em favor de uma tradicional família brasileira, mas também por alas do feminismo e de pessoas de esquerda que não tem a mente muito aberta, conhecidas no meio como esquerdomachos.
São por estes motivos que vale a pena assistir o documentário produzido pela jornalista Isabela Mercuri, como trabalho de conclusão de curso de jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT): Puta porque sim - Quando a prostituição é feminismo. Com entrevistas de prostitutas, pesquisadores, gestores as vozes às vezes são complementares, outras vezes discordantes, mas revelam o protagonismo delas. Em um trecho uma trabalhadora diz que começou a trabalhar porque o pai não queria uma filha “rapariga”, por estar grávida e não querer casar. Outra relata a insegurança por não conhecer os clientes. Uma terceira revela ainda que as vezes em que sofreu repressão foi por policiais.
Particularmente sou favorável a regulamentação da prostituição, pois isso ajudaria a elas (e eles, claro) terem acesso a aposentadoria e outros benefícios como ter uma comprovação de renda para gerir contas bancárias, entre outros motivos. Um outro lado é que a regulamentação poderia ajudar a combater o tráfico de pessoas, prática que acontece mais do que a gente supõe além de ajudar a diminuir o preconceito machista contra mulheres que encontram essa atividade como única opção após serem expulsas de suas casas.
Ou seja, a prostituição deveria ser uma opção de trabalho legítima e a reivindicação dessa condição é, sem dúvida, um ato de feminismo, porque como deixou registrado no título de sua biografia, Gabriela Leite era filha, mãe, avó e puta. Ou seja, ela era, antes de mais nada e como todas as outras, uma mulher.




terça-feira, setembro 15, 2015

Documentário mostra o que há por trás da indústria da moda

A indústria da moda, uma das que mais emprega gente no mundo é também a segunda mais poluente. Esta é uma das afirmações do documentário “The True Cost”, de Andrew Morgan, disponível no Netflix, que mira nas empresas de moda de “consumo rápido” e suas consequências socioambientais.
O ponto de partida é o desmoronamento de um prédio em Bangladesh onde funcionavam fábricas de roupas, que levou a morte de 1.134 funcionários que trabalhavam em condições subumanas.
Com entrevistas em várias partes do mundo, incluindo a Índia, os Estados Unidos e Bangladesh, o documentário põe o dedo em  problemas sérios em várias etapas da cadeia de produção, começando pelo cultivo do algodão e seu massivo uso de agrotóxicos, às condições de escravidão dos trabalhadores e estratégias de marketing que incentivam o consumo de roupas de baixo custo (essas quase descartáveis que compramos para usar no dia-a-dia).
As ativistas Vandana Shiva, Stella McCartney, Livia Firth, entre outros entrevistados discutem como que a disputa das marcas geram milhões de miseráveis ao redor do mundo, além de apontarem alguns caminhos para um consumo mais consciente, não somente de roupas.
O documentário não traz nenhuma entrevista no Brasil, onde os casos também são bem evidentes. Nos últimos cinco anos, pelo menos, empresas como Renner, Pernambucanas, Collins, C&A, Marisa e Sete Sete Cinco foram investigadas por trabalho escravo, sobretudo com bolivianos. Além dessas, um dos escândalos mais marcantes é a da Zara, que, apesar de ser uma grife de luxo, foi condenada por esse mesmo motivo.
Assista ao documentário e olhe as etiquetas das suas roupas.







segunda-feira, março 03, 2014

Oscar 2014: quase sem surpresas

A cerimônia do Oscar 2014 optou por uma linha mais politicamente correta e "democrata" ao diluir seus principais prêmios para vários bons filmes. Gravidade ganhou 7 estatuetas, em sua maioria prêmio técnicos, além do esperado melhor direção. "12 Anos de Escravidão" ganhou força nas últimas semanas e além de melhor filme, venceu também com melhor atriz coadjuvante e roteiro adaptado.

O injustiçado "Ela" de Spike Jonze ao menos venceu com o Oscar de roteiro original, e "Blue Jasmine" deu a estatueta a Cate Blanchet, apesar do período nebuloso para Woody Allen. Faltou premiar "Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum ", dos Irmãos Coen e "Nebraska", de Alexander Payne. Mas o grande perdedor, mesmo, foi "Trapaça", que mesmo com 10 indicações e dirigido pelo novo queridinho de Hollywood, David O. Russell, não levou nada.

domingo, janeiro 05, 2014

Melhores e Piores de 2013

Como em anos anteriores, ainda que um pouco atrasado, listo minha seleção de melhores e piores filmes que assisti pela primeira vez em 2013, independente do ano de lançamento. Entre os melhores, além dos óbvios Django Livre e Argo, incluo o sensível Indomável Sonhadora e o contundente Amor.

Entre os piores, impossível não listar as malfadadas continuações Duro de Matar 5, Atividade Paranormal 4, GI Joe – Retaliação e O Último Exorcismo – parte 2.

Também listo aqui os dez filmes que mais me decepcionaram, não necessariamente por serem ruins, mas por serem aquém do que esperava, considerando o tema, elenco etc. Aqui entraram principalmente temporadas de séries que gosto (ou gostava) como a terceira e preguiçosa temporada de Homeland e a esticada temporada de The Walking Dead.

E também trago dez destaques, que é sempre a minha seleção mais difícil. Também não são necessariamente filmes excepcionais, mas que valem a pena conferir. O brasileiro Faroeste Caboclo está nesta lista, assim como O Voo, com uma espetacular atuação de Denzel Washington. A crueza de Os Amores da Casa de Tolerância ganhou minha simpatia pela forma que a história foi abordada.

O último filme a entrar nesta lista foi o remake Sob o Domínio do Medo. Sim, eu sei, muita gente não gostou. Talvez até por isso, esperava que fosse odiosamente ruim, mas até achei interessante. Não para o cinema, mas para a TV e guardando as devidas proporções entre o diretor deste e do original. E claro que não dá pra comparar a atuação canastrona de James Marsden com a de Dustin Hoffman em 1971.

domingo, dezembro 08, 2013

Cinderelas, Lobos & Um Príncipe Encantado

O documentário dirigido por Joel Zito Araújo em 2009 mostra um Brasil lastimável que (quase) ninguém quer ver. O da visão dos estrangeiros sobre as mulheres (ou travestis) brasileiras, sobretudo as negras (e pobres) que vem ao país em uma quantidade assustadora, em busca do turismo sexual, sem se importar inclusive se são menores de idade impúberes, ou dependentes de drogas.

Joel Zito é hábil em mostrar a miséria humana, a falta de opção na vida e a ilusão de meninas que sonham em encontrar seu príncipe encantado mas que, em sua grande maioria, encontram o descaso, o preconceito, a inexistência do Estado, a violência e os agenciadoras da prostituição no exterior, que são os verdadeiros "lobos" do título.

Ele não julga as escolhas das entrevistadas, até porque sabe que é impossível fazer isso, face a vida que elas levam ou levaram. Por outro lado, o diretor é contundente em mostrar, além dos aliciadores, os vários problemas familiares, sociais e econômicos que pesam, muitas vezes, nas escolhas equivocadas, para não dizer quase sempre letal.

Fundamental pra aqueles que acham que conhecem o Brasil e mais ainda para aqueles que buscam mais embasamento contra o turismo sexual no Brasil.

Assista ao trailer do filme aqui

O Riso dos Outros - O humor tem limites?

O documentário, de 2012, dirigido por Pedro Arantes, foi produzido no auge da comédia stand up, antes, portanto, do fenômeno Porta dos Fundos.
Ainda sim, é atual, e importantíssimo assisti-lo. Uma piada é só uma piada? Numa piada vale tudo? Ou o humor tem que ter limites e/ou estar ancorado claramente ancorado numa opinião, como acontece com as charges?
Se você respondeu a sim às duas primeiras perguntas, deveria rever seus conceitos. Neste documentário, os próprios entrevistados Danilo Gentili - comprovando ser um imbecil completo, e Rafinha Bastos, que usa sua acidez (às vezes inteligente) de forma desregrada e preconceituosa quase sempre.
Não, isso não significa que devemos execrar os comediantes, mas sim saber avaliá-los e avaliar o nosso senso crítico ao depararmos com aqueles que fazem piadas com judeus no período nazista, a feias que deveriam agradecer por ser estupradas àqueles que fazem piadas de forma, digamos, responsável. Pensando em não menosprezar a minoria, mas sim fazendo do seu humor uma crítica social. Laerte Coutinho, que também é um dos entrevistados deste documentário, mostra isso muito bem. Ao lado dele está Jean Wyllis - uma das pessoas públicas que mais admiro neste país, entre outros, mostram que ao fazer piadas sexistas com mulheres, loiras, ou feias, ou obesas, com gays, travestis, negros e pobres, o "humor", na maioria das vezes, apenas reforça os estereótipos de uma sociedade extremamente preconceituosa.
Pra quem acha que o humor pode ser inteligente e que tudo na vida tem um lado, este documentário é fundamental e está disponível na íntegra no youtube no link: http://www.youtube.com/watch?v=CxG_8KHFgks
 
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