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domingo, dezembro 14, 2008

Capitu

0,,16089844-EX,00 Quem diria… Eu elogiando um programa da TV Globo. Tudo bem que é uma mini-série do Luiz Fernando Carvalho mas logo sobre um dos melhores livros de todos os tempos na análise de 9 entre 10 críticos de literatura brasileira?
Pois é, apesar de não ter achado que ficou à altura do que Machado de Assis mereceria (mas é melhor nem lembrar da bomba que fizeram no cinema com Quincas Borba e que promete ser superior ao simpático filme Memórias Póstumas de Brás Cubas) “Dom Casmurro”, ou melhor “Capitu” me impressionou no primeiro capítulo.
Primeiro pela escolha do ator, Michel Melamed, um performático que deu uma entonação perfeita a Dom Casmurro mas também a jovem Capitu (Letícia Persiles), (que não tem cara nem corpo de 17 muito menos de 14 anos), mas parece mesmo a encarnação de Capitu. Não sei se Maria Fernanda Cândido conseguirá ir melhor, já que no outro papel que ela fez como Capitu (no péssimo filme Dom, uma livre e podre atualização da obra) não se saiu muito bem.
Não sei se Carvalho conseguirá atrair o público jovem, mesmo tendo colocado uma trilha moderna e ter claramente se inspirado em Moulin Rouge. Mas os poucos cenários e as caricaturas dos personagens, também usados em A Pedra do Reino, soam como fraqueza de inspiração. Mais do que gancho para a atrair os jovens.
E particularmente, to nem aí pra isso. E ainda bem que não simplificou a linguagem. O monólogo de Bentinho velho é Machado de Assis textualmente, literalmente, com seu sarcasmo e ironia que poucas pessoas (modéstia à parte eu me incluo neste rol) conseguem captar de primeira.
E espero que os mais jovens também assistam Capitu com cuidado, pois a mini-série pode despertar mais ciúmes na atual ou futura amada do que a adolescência já faz sentir… Já que a história é sobre uma mente atordodada que se remói pela dúvida se Capitu traiu Bentinho/Casmurro ou não. E toda a história tenta mostrar que sutilmente Capitu e mais tarde Escobar não eram santos.
No primeiro capitulo: Capitu ao escutar o doceiro cantar na rua vai a janela olhar o sujeito que irá oferecer um doce. Mas o seu olhar e seus gestos mostram que isso não era o doce que ela queria… Bentinho, todo, todo, crente da paixão de Capitu por ele compra o doce que ela ignora por completo. E ainda, ao explicar como Bentinho poderia manipular João Dias ao seu favor, explicando como convencê-lo para que o agregado faça o que se quer… Lembranças como estas vão remoendo e remoendo a mente de Bentinho….
Mas, como não diria Machado de Assis… "Chifre não existe, é uma coisa que colocaram na sua cabeça".
O segundo capítulo foi menos inspirado que o primeiro, mas ainda sim foi bom. Bentinho, apaixonado, percebe a diferença entre querer fazer e fazer e começa a sentir ciúmes de Capitu ao perceber a frieza (ou seria jogo?) que ela o trata no dilema de Bentinho. Se ele virar padre, iria batizar o primeiro filho dela, já que para casá-la iria demorar muito. E falando de um jeito... com aquele “olhar de cigana oblíqua e dissimulada”. “Olhos de ressaca. Ressaca? Vá, de ressaca”. E como poderia ser diferente, não é mesmo, já que ele sente que Capitu é “muito mais mulher do que ele é homem”.
Por falar nisso, reparem bem nos personagens fortes e fracos da trama... Os fortes, até agora são a mãe de Bentinho, José Dias e claro... Capitu. Os demais, inclusive o próprio Dom Casmurro é tratado com desdém, sarcasmo, ironia... Já imaginaram por que? Não... Então conheçam Escobar...

E como não diria Machado de Assis: “todo homem já foi Bentinho ao menos uma vez e toda mulher é Capitu.”
Não vi o terceiro capítulo, por motivo de força maior. Mas me atrevo a fazer um comentário, mesmo assim. Somos apresentados a Escobar, o amigo/rival de Bentinho, um cara que ele admira mas sente que ele é muito mais "homem" do que ele, muito mais decidido. Bentinho queria ser como Escobar... Capitu iria preferir que Bentinho fosse como Escobar? Capitu irá preferir Escobar, ainda que se case com Bentinho? Vale a pena recorrer a "A Mão e a Luva" e ver o embate dos personagens Estevão (o romântico), Luís Alves (o decidido e racional) e Jorge (o interesseiro) pelo coração de Guiomar. Quem ganha o duelo? Luís Alves, é claro. Ou então ainda, vale a pena ler, não só por isso, é claro, ver a briga de Paulo (impulsivo) e Pedro (dissimulado) pelo amor de Flora em "Esaú e Jacó".
E como não diria Machado de Assis: Não existe amor sem conflitos.
E não é que o penúltimo capítulo, que tratou da parte mais complexa de Dom Casmurro, conseguiu se manter na média? O capítulo todo é sobre Escobar, que mostra toda a sua imponência frente ao frágil Bentinho. Ele conseguiu livrar o narrador do seminário, flertou com sua mãe, mostra que seu interesse é no dinheiro no capítulo “idéias aritméticas”, casa-se com a melhor amiga de Capitu e ainda – cativa no coração de Bentinho um sentimento que seria.... homossexual? “Tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se me não visse desde longos meses” ou em outro trecho, “Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos”. A fixação pela traição (meu Zeus, será que ele queria um mènage?) de Escobar e Capitu é tão grande que até mesmo o casamento e a lua-de-mel são descritos com frieza monumental. A não ser, é claro, pelo fato de que Capitu queria se exibir como senhora Santiago e uma certa visita que lhes fizeram um certo João Dias, novamente.

E como não diria Machado de Assis, "tem coisa que a gente fala, mas não faz e tem coisa que a gente faz, mas não fala".
E o capítulo final? Fazer rir e divertir em desfecho tão trágico. Como não se emocionar com a covardia de Bentinho ao tentar se matar e, pior, ao querer matar o filho, ou no monólogo final, em que Dom Casmurro está travestido de Bentinho, Capitu e Escobar. Ah, não entenderam?, putz... Leiam o livro ou comprem o DVD quando sair (aceito uma cópia, viu, ou ganhar o original de presente?). Interessante notar que o diretor conseguiu exprimir quase tudo que está no livro com puro lirismo, respeitando até mesmo quando o lirismo estava simplesmente nos monólogos. Como em, “Não só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra coisa: achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar”, mostrando também o lado infiel de Bentinho. Também respeitou na frieza com que descreveu a morte de Capitu e Ezequiel mas como dedicou muito mais tempo a morte de José Dias e, claro, de Escobar. Também não escondeu que depois de Capitu, Bentinho tivera várias outras mulheres, mas que não tinham os “olhos de ressaca”, mostrando que talvez os ciúmes eram antes, ou depois, vitimados por outros ressentimentos que foram escondidos na narração.
Mas assim, embora eu me inclua entre aqueles que acham que Capitu o traiu, a trama de Carvalho deixa muito menos margens às dúvidas, já que parece nos guiar mais do que Machado de Assis, mas vá lá, isso não tira o mérito da obra.
Também não tira o mérito da obra a única cena que realmente eu achei muito sem graça, que foi a morte de Escobar em mar revolto. Antes deixasse na narração do que aquela micagem... Mas está perdoado.
Enfim, é a melhor tradução de uma obra machadiana que já vi para a TV ou para o cinema. Estou até a fim de revisitar Memórias Póstumas, lançado em DVD há alguns anos...

E como disse Machado de Assis: “A franqueza é a primeira virtude de um defunto.”


Primeiro capítulo, nota 08
Segundo capítulo, nota 07
Terceiro capítulo, sem nota
Quarto capítulo, nota 08
Quinto capítulo, nota 10

3 comentários:

Thiago disse...

Olha eu de novo aqui! Mas acho que ninguém esperou com mais entusiamo do que eu "Capitu". Após ter adorado "A pedra do Reino" e idolatrar Machado, não podia ser diferente. Assim, vou dar meus pitacos. Ter preservados as frases mais sútis e encantadoras do livro já é motivo para eu comprar o DVD. Mas quanto aos méritos da criação da série destaco a realeza que se dá aos personagens por meio dos cenários. Apesar do romance não ter esta configuração, é uma boa interpretação, visto a riqueza da narração e as situações vividas pelas personagens. A situação do beijo, dirigida magistralmente na série, é um exemplo desta riqueza. O que não gostei muito é alguns exageros teatrais, como a cena de Escobar subindo a mesa (3° capítulo). Estes exageros talvez ficariam mais adequados na filmagem de "Memórias...". Em Dom Casmurro, fico com um pé atrás.

André Alves disse...

Pois é, Thiago. Infelizmente eu não vi o terceiro capítulo (mas foi por um motivo importante). Concordo com os exageros teatrais, ainda que Casmurro tenha comparado sua vida com uma ópera.

PS. Vc assistiu o filme Memórias Póstumas de Bras Cubas, com Reginaldo Faria no papel-título?

thiago disse...

É verdade... bem lembrado. Mas não uma ópera contemporânea, né!? hehehe!
Sobre o filme Memórias Póstumas..., eu assisti. Lembro de não ter gostado muito. Talvez porque eu era muito incipiente e também não tinha lido o livro decentemente(tinha lido pra escola).

 
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