Google+ Cinema e Mídia: À saciedade do espetáculo

Social Icons

twitterfacebookgoogle plusrss feedemail

terça-feira, maio 22, 2012

À saciedade do espetáculo

 André Alves* - Não é de hoje que a mídia faz valer do grotesco, do espetáculo, do sensacionalismo. Mas nem sempre é tão marcante quanto o que aconteceu nos últimos dias, com o “depoimento” da Xuxa ao Fantástico e da repórter que ridiculariza um menino acusado de estupro. Os dois casos são similares ao mesmo tempo que opostos. Enquanto na vênus platinada o ícone de toda uma geração denuncia, décadas mais tarde, que sofreu abuso sexual; na Band, uma de suas concorrentes, um garoto negro visivelmente humilde e agredido fisicamente é humilhado pela repórter do programa Brasil Urgente por não saber a diferença de exame de corpo de delito e exame de próstata (veja o vídeo no final do artigo).

É claro que não estou tratando aqui de defender o sujeito, que alega inocência, mas no tratamento diferenciado que um acusado negro e pobre tem de um Cachoeira, por exemplo. Se estuprou, tem que ser julgado por esse crime também além do furto, que ele já havia confessado. Mas e se ele for inocente desse crime. O que fica? O linchamento moral e a humilhação pública.

O caso de Xuxa é ainda mais emblemático por dois fatores. O primeiro: porque só agora resolveu fazer esse depoimento – tão humilhante para ela como é vergonhoso para a sociedade brasileira, não só por ela, mas pelas milhares e milhares de crianças que sofrem o mesmo tipo de assédio todos os dias? Segundo: porque algo tão íntimo é destaque principal da “distração” dominical da Globo, que durante intermináveis 25 minutos explorou da situação de abusada da apresentadora, mesclando,  com fofocas tolas sobre Pelé, Ayrton Senna e Michael Jackson?


As respostas são várias, mas uma delas é a decadência do Fantástico por sua própria fórmula arcaica aliada a concorrência com as outras emissoras abertas, a TV paga e a Internet. E nesse caso, apesar desse crescente e inevitável declínio da soberania global, infelizmente, nem sempre o público migra de canal para ver ou fazer coisa melhor, já que nos canais vizinhos e na internet o que não faltam são os mesmos apelos espetaculosos, de baixa qualidade e de gosto discutível. Mas também, temos que reconhecer, também há atrativos mais interessantes do qual uma parcela da sociedade também conseguiu se livrar do reinado absolutista da TV.

Mas o quanto o público migra por causa de um ou por causa de outro fator ainda é desafiador para os seres de cá da tela. Sim, porque do lado de lá, acredita-se que a fórmula para se recuperar a audiência é explorar o sentimento alheio e baixar o nível o máximo possível, maquiado de algo “revelador”.


Ainda bem que nem sempre a nossa memória é curta! A Xuxa vítima de assédio quando criança é a mesma do filme Amor, estranho amor, de 1982, onde tem cena dela com um menino de 12 anos? É a mesma Xuxa que promoveu as paquitas em trajes curtos e mais tarde os paquitos sem camisa para atrair a audiência? É a mesma que também usava trajes pequenos, não raro demonstrava pouco jeito para lidar com crianças? É a mesma que exibia fotos sensuais e apelativas em seus discos?

É claro que não estou argumentando em prol de um pseudo moralismo e também nada disso inocenta aqueles que, por acaso, abusaram dela, mas serve para gente pensar quais são os parâmetros da TV brasileira em busca de audiência. Uma denúncia dessa não teria mais efeito sem o espetáculo e com um aprofundamento no tema?

Mas não é de profundidade que vive a TV e sim de usar a miséria humana – não das celebridades mas sim as nossas próprias – para nos aproximar de seus produtos (Xuxa, Luciano Hulk, ex-BBBs e por aí vai) e nos fazer acreditar que vivemos no mesmo mundo e sofremos dos mesmos males. Até porque se isso fosse verdade, o guri negro humilhado na Band teria sido tratado com um mínimo de cuidado.

Tão triste quanto a distorção de quem usa o microfone é a distorção de quem assiste. Seria melhor se houvesse mais Herreras, o jogador do Botafogo que ignorou a Globo e não quis pedir musiquinha  pelos seus três gols marcados... Mas pensando bem, não é o futebol outra forma barata de conquistar audiência?

Melhor desligar a TV e fazer qualquer outra coisa!

* André Alves é jornalista e especialista em Antropologia. E também autor do blog Cinema & Mídia








2 comentários:

madelon disse...

Que repórter insuportável! Ela se acha a esperta!!!O que é lamentável na conduta de uma jornalista desse tipo é que essa imprensa composta por profissionais despreparados como ela é que acabam julgando e condenando as pessoas.Merece ir pro olho da rua.

JFernando disse...

Como sou feminista é difícil não discordar de algumas coisas. Mas, sabe o que é mais interessante Qual é o pior? Uma apresentadora e ex-modelo falar em rede nacional sobre abuso sexual (rimou) ou uma jornalista que, se fez faculdade, aprendeu noções de sociologia, filosofia e ética, tratar de forma tão ridícula um ser humano?

 
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.